quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Identificações

Na postagem anterior , descrevi o impacto em nós das reminiscências de nossos primeiros anos de vida, conforme nos teriam sido narrados por pessoas próximas - em geral, parentes - cuja opinião e apreço são elementos formadores de nossa personalidade. 

Tais histórias corresponderiam a alguns dos subsídios para  nossos primeiros processos identificatórios, ou seja, à maneira pela qual estaríamos começando a nos reconhecer como indivíduo singular - obrigatoriamente influenciados pelo tipo de relação que temos com outros membros da espécie humana inseridos em dado contexto social e  cultural. Todavia a primeira marca de singularidade está nas lembranças - mesmo daquelas 'emprestadas' - que 'escolhemos' * preservar e das nuances afetivas - mais idealizadas, mais pragmáticas, mais compensadoras - de que elas se revestem.

Um questão importante é  o quanto os compulsórios processos de identificações que atravessam nossa inteira existência - com ênfase significativa na infância e na adolescência -  seriam capazes de se impor àquele cerne essencial de nosso Ser, sede de nossa singularidade. Neste sentido, a antiga polêmica 'Nature x Culture' reatualiza-se em cada espectro íntimo e com novas roupagens epistemológicas (com as conquistas no campo da genética sofisticando e dando um cunho científico  aos argumentos da primazia da 'Natureza do Ser'). 

Esta indagação se espraia em outras mais densamente psicológicas, nas fronteiras da ética. Somos fruto mais diretamente dependente das identificações que nos perpassam ou da forma pela qual 'escolhemos' * a elas responder ? Em termos do exemplo , explanado em forma nostálgica e poética na postagem anterior: se nossa família  projetou em nós o desejo de que viéssemos  a ser um Rei ou Rainha na nossa sociedade, isto corresponderia a uma herança de prepotência e fantasias megalomaníacas? Ou , ao invés, a uma missão heroica, de devotar a existência a nobres causas, onde a Exigência de Excelência - em prol do Outro como de Si mesmo/a - supera a do anseio pelo Prazer ? 



Dependeria tal 'escolha' de algum sutil equilíbrio entre todos os fatores - os da nossa Natureza e os de alheias influências (inclusive as fortemente intermediadas pelo ambiente) - que  provocam seu emergir e suas vicissitudes ? Ou - como é nossa audaz proposta insinua - há em cada um de nós um elemento próprio de Vontade (outra categoria complicada!) que precisa ser mobilizado do 'jeito certo' para que cada um de nós siga este ou aquele caminho ? 

Mas isto é matéria para um outro intervalo reflexivo !!!  


P.S. 

* Lembrar que em termo psicanalíticos, a 'escolha' não é 'voluntária e pontual'. Faz-se em nós, a partir de uma constante  dinâmica entre nossos mecanismos conscientes e Inconscientes, ação diária  de auto-conhecimento e/ou de auto-alienação, inspirada por um ideal de feição humanística e/ou por um conformismo semi-ignorado . (como não somos anjos , no psiquismo humano , fora Instantes Privilegiados, tudo é uma  questão de predominância entre fatores antagonísticos).  




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