terça-feira, 28 de julho de 2020

Reminiscências emprestadas

Quando falamos de lembranças remotas, varia muito o  'extremo limite' em que cada um de nós se reconhece . Oscilando elas entre os primeiros anos de vida,  lacunas mais opacas no tempo são preenchidas pelo repertórios de recordações de pais, parentes, amigos ...  Chamamos tais relatos de  'reminiscências emprestadas'...

As quais podem ter, entretanto, significativo poder de influência nos esboços que traçamos do que seria nossa natureza originária, assim como das reações que esta teria provocado nos importantes personagens de nossos percursos  pessoais, a nosso redor. 

Fazem parte da construção de uma 'mitologia íntima' , da qual - queiramos ou não - somos protagonistas, destinados a reativar lendas ancestrais, qual herói/heroína, seus oponentes , seus coadjuvantes... 

Nossas Histórias nos fazem quem somos . 

Na contramão da tendência prioritária na época, minha libertária mãe professava não desejar procriar.  Mas, uma vez que engravidou, assumiu , com o espartano senso do dever que lhe era característico, a responsabilidade para com o bem-estar da criatura em suas entranhas. Durante a gestação, malgrado as azias, consumia  caixas e mais caixas de ameixas, figos  e frutas finas para  assegurar à  prole uma pele de pêssego.  Da família europeia de meu pai recebi todo um enxoval azul de presente - de acordo com o anseio geral por  um primogênito que assegurasse a bruxuleante linha sucessória da nobreza exilada no Far North  ... 

                             

Ou esta é a História que me foi contada !

Ela não se decepcionou quando lhe nasceu uma menina, a maior (quase meio metro) , a mais pesada (quase cinco quilos) , quiçá a mais vistosa (profusos cachos castanho-doirados e olhos enormes azuis) da Maternidade.  Seu primeiro desejo, tão logo soube do sexo do bebê, sussurrado ao seu ouvido  foi: "Que ela  não seja calada como eu! Que sempre fale dos seus sentimentos sem medo ".

Nosso quarto era o último do corredor . Enquanto eu era levada para mamar, parava em cada soleira do trajeto,  para que o Big Baby fosse admirado.  Minha mãe  tinha tanto leite que dele doou parte a uma parturiente de secas tetas, e minha provisória colaça plagiou o meu primeiro prenome, em minha homenagem. 

 Destarte teria ocorrido, conforme  me foi contado !. 

Mas, em breve,  a antiga rivalidade mãe-filha retornou,  com os olhos verdes dos Ciúmes - do meu pai, que me adorava -   e o desprezo das inteligências  abstratas pelas contingências da sobrevivência expressas  nos entediantes cuidados para com um ser que sequer  falava . Ela detestava particularmente me amamentar. Diria, anos depois : "É como se eu tivesse um porquinho sugando de meu peito" (embora, como toda a família, gostasse muito de bichos, pequenos suínos incluídos) !  O que não a impediu de ter sempre muito leite e de me suprir do alimento mais saudável  - sempre em nome da Obrigação  -  até quase um ano. 


E  assim reza a História que me foi contada ! 


Grandes são os mistérios que ligam a consciência  de nossos desejos aos ambíguos determinantes do  Inconsciente! 




Felizmente, quando eu tinha seis meses , me foi concedida a Sorte/Graça de recebermos em nossa casa uma babá índia, oriunda  de tribo semi-aculturada,  já uma senhora , que, egressa dos verdes dosséis da selva,  se agregara  às plagas urbanas há apenas algumas décadas e pôde me oferecer o melhor das duas culturas.

Mas isto é matéria para uma outra postagem... 








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