segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Babá Alice

 Minha babá índia era a babá Alice - parece que este era o nome de origem portuguesa mais próximo, sonoramente, de seu nome na língua nativa .  Tinha vivido na floresta, onde teve seu único filho, até que depois dos trinta anos,  indo ele morar na cidade, acabou por traze-la para seu convívio . E de lá ela nos chegou, com fama de amorosa e eficiente, e , antes de tudo,  com reputação  de limpíssima, exigência primordial de minha mãe. 

Já era uma senhora, alta e elegante, de porte altivo, como uma árvore esguia e forte, cor de bronze por entre alvas vestes, que estalavam , de tão engomadas , rescendendo ao anil nelas impregnado  pelo ferro  de passar a vapor. Como esteve comigo desde meus seis meses até meus cinco anos, confundo o que me foi contado de suas histórias com o que ouvi de sua própria boca.  Minhas recordações são de vagas sensações e sentimentos, pouco visuais.  Sei que pariu o filho sozinha, à beira do rio e se lavava do sangue  enquanto apoiava  o bebê na tira suspensa ao seio. Ali, ele mamava quando queria , enquanto ela , recém partejada, capinava na roça. Lembro cantigas diferentes das que me eram ensinadas na escola, que ela me entoava em surdina . Sua mão segurava a minha com tanta força que meus dedinhos ficavam vermelhos, mas eu não reclamava. Seu hábito cheirava a ervas doces, quando me aconchegava para dormir entre  lençóis perfumados de alfazema.  

Mamãe dizia que, quando eu era bem pequena, chorava se tentavam me tirar do colo da babá Alice, o único lugar em que parecia me sentir completamente segura e de onde estranhava todos os  parentes . Ela gostava de me deixar bem apoiada em seus  braços mas   'meio solta' no ar - "pra me acostumar com a liberdade".  As outras mães na pracinha ofereciam dinheiro em dobro para minha babá ir trabalhar com elas, mas ela sequer respondia e minha mãe só sabia do assunto pela fofoca de vizinhas. 

Ela me mostrava os pássaros nas árvores, me dizia seus nomes, explicava seus cantos. Me ensinava a contar até sete depois do relâmpago e esperar o trovão sem medo.  A espreitar a  primeira estrela a surgir no céu que trocava sua vestimenta diurna azul claro pela mais escura da noite . A observar as poças d'água se formarem na varanda, quando chovia ... e respirar, então, bem fundo, para sentir o cheiro da terra das plantas nos vasos de barro que inundava o ar úmido como o próprio alento da Vida. 

Ela falava com saudades das matas  . Das redes balançando sob o luar . Dos rapazes fortes brigando pra  se mostrar às moças que teciam cestos de palha. Dos banhos de todos juntos  nas cachoeiras. Dos barulhos dos bichos e de  outros seres estranhos - como o Saci, que faz a gente perder as coisas dentro de casa -  que se esgueiravam escondidos na escuridão da noite. 

Será que vem daí o meu imenso amor pelas florestas ? Só me sinto realmente em casa, sendo eu mesma, em uma trilha em meio a grandes árvores, longe, bem longe de gente, muita cantoria dos serezinhos alados a meu redor, frutos e flores silvestres disfarçados por entre os remansos do verde , grilos e sapos festejando o crepúsculo e o enorme dossel do universo sobre mim...  

Minha lembrança mais triste da infância foi quando ela foi embora. Sei que não queria ir, nem minha família deixa-la partir,  mas o filho - agora bem situado na vida - quis reclama-la para voltar com ele para uma cidade menor, perto da antiga taba, cuidar dos netos. Nem lembro detalhes da despedida. 

Só malas arrumadas, asseadíssimas e cheirando a couro encerado, no corredor de entrada  lá de casa. E a dor do coração partido de uma menininha solitária; algo de dilacerante ainda me assombra a memória quando evoco aqueles volumes marrons na atmosfera de adeus acinzentada  deste capitulo  de meus primeiros anos ... 

Mas outros volumes, desta vez , com lombadas esguias e figuras coloridas, já me esperavam nas recém colocadas  estantes em meu quarto , trazendo novas histórias , para ofertar outras paisagens imaginárias a meu mundo secreto... 

Mas isto ... é matéria para outra postagem!      


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Identificações

Na postagem anterior , descrevi o impacto em nós das reminiscências de nossos primeiros anos de vida, conforme nos teriam sido narrados por pessoas próximas - em geral, parentes - cuja opinião e apreço são elementos formadores de nossa personalidade. 

Tais histórias corresponderiam a alguns dos subsídios para  nossos primeiros processos identificatórios, ou seja, à maneira pela qual estaríamos começando a nos reconhecer como indivíduo singular - obrigatoriamente influenciados pelo tipo de relação que temos com outros membros da espécie humana inseridos em dado contexto social e  cultural. Todavia a primeira marca de singularidade está nas lembranças - mesmo daquelas 'emprestadas' - que 'escolhemos' * preservar e das nuances afetivas - mais idealizadas, mais pragmáticas, mais compensadoras - de que elas se revestem.

Um questão importante é  o quanto os compulsórios processos de identificações que atravessam nossa inteira existência - com ênfase significativa na infância e na adolescência -  seriam capazes de se impor àquele cerne essencial de nosso Ser, sede de nossa singularidade. Neste sentido, a antiga polêmica 'Nature x Culture' reatualiza-se em cada espectro íntimo e com novas roupagens epistemológicas (com as conquistas no campo da genética sofisticando e dando um cunho científico  aos argumentos da primazia da 'Natureza do Ser'). 

Esta indagação se espraia em outras mais densamente psicológicas, nas fronteiras da ética. Somos fruto mais diretamente dependente das identificações que nos perpassam ou da forma pela qual 'escolhemos' * a elas responder ? Em termos do exemplo , explanado em forma nostálgica e poética na postagem anterior: se nossa família  projetou em nós o desejo de que viéssemos  a ser um Rei ou Rainha na nossa sociedade, isto corresponderia a uma herança de prepotência e fantasias megalomaníacas? Ou , ao invés, a uma missão heroica, de devotar a existência a nobres causas, onde a Exigência de Excelência - em prol do Outro como de Si mesmo/a - supera a do anseio pelo Prazer ? 



Dependeria tal 'escolha' de algum sutil equilíbrio entre todos os fatores - os da nossa Natureza e os de alheias influências (inclusive as fortemente intermediadas pelo ambiente) - que  provocam seu emergir e suas vicissitudes ? Ou - como é nossa audaz proposta insinua - há em cada um de nós um elemento próprio de Vontade (outra categoria complicada!) que precisa ser mobilizado do 'jeito certo' para que cada um de nós siga este ou aquele caminho ? 

Mas isto é matéria para um outro intervalo reflexivo !!!  


P.S. 

* Lembrar que em termo psicanalíticos, a 'escolha' não é 'voluntária e pontual'. Faz-se em nós, a partir de uma constante  dinâmica entre nossos mecanismos conscientes e Inconscientes, ação diária  de auto-conhecimento e/ou de auto-alienação, inspirada por um ideal de feição humanística e/ou por um conformismo semi-ignorado . (como não somos anjos , no psiquismo humano , fora Instantes Privilegiados, tudo é uma  questão de predominância entre fatores antagonísticos).  




Do final do Luto à reativação do Legado

 Hoje faz exatamente um ano e um mês que minha mãe morreu. Estava completamente  lúcida e frágil - seus pulmões forma silenciando aos poucos...