Minha babá índia era a babá Alice - parece que este era o nome de origem portuguesa mais próximo, sonoramente, de seu nome na língua nativa . Tinha vivido na floresta, onde teve seu único filho, até que depois dos trinta anos, indo ele morar na cidade, acabou por traze-la para seu convívio . E de lá ela nos chegou, com fama de amorosa e eficiente, e , antes de tudo, com reputação de limpíssima, exigência primordial de minha mãe.
Já era uma senhora, alta e elegante, de porte altivo, como uma árvore esguia e forte, cor de bronze por entre alvas vestes, que estalavam , de tão engomadas , rescendendo ao anil nelas impregnado pelo ferro de passar a vapor. Como esteve comigo desde meus seis meses até meus cinco anos, confundo o que me foi contado de suas histórias com o que ouvi de sua própria boca. Minhas recordações são de vagas sensações e sentimentos, pouco visuais. Sei que pariu o filho sozinha, à beira do rio e se lavava do sangue enquanto apoiava o bebê na tira suspensa ao seio. Ali, ele mamava quando queria , enquanto ela , recém partejada, capinava na roça. Lembro cantigas diferentes das que me eram ensinadas na escola, que ela me entoava em surdina . Sua mão segurava a minha com tanta força que meus dedinhos ficavam vermelhos, mas eu não reclamava. Seu hábito cheirava a ervas doces, quando me aconchegava para dormir entre lençóis perfumados de alfazema.
Mamãe dizia que, quando eu era bem pequena, chorava se tentavam me tirar do colo da babá Alice, o único lugar em que parecia me sentir completamente segura e de onde estranhava todos os parentes . Ela gostava de me deixar bem apoiada em seus braços mas 'meio solta' no ar - "pra me acostumar com a liberdade". As outras mães na pracinha ofereciam dinheiro em dobro para minha babá ir trabalhar com elas, mas ela sequer respondia e minha mãe só sabia do assunto pela fofoca de vizinhas.
Ela me mostrava os pássaros nas árvores, me dizia seus nomes, explicava seus cantos. Me ensinava a contar até sete depois do relâmpago e esperar o trovão sem medo. A espreitar a primeira estrela a surgir no céu que trocava sua vestimenta diurna azul claro pela mais escura da noite . A observar as poças d'água se formarem na varanda, quando chovia ... e respirar, então, bem fundo, para sentir o cheiro da terra das plantas nos vasos de barro que inundava o ar úmido como o próprio alento da Vida.
Ela falava com saudades das matas . Das redes balançando sob o luar . Dos rapazes fortes brigando pra se mostrar às moças que teciam cestos de palha. Dos banhos de todos juntos nas cachoeiras. Dos barulhos dos bichos e de outros seres estranhos - como o Saci, que faz a gente perder as coisas dentro de casa - que se esgueiravam escondidos na escuridão da noite.
Será que vem daí o meu imenso amor pelas florestas ? Só me sinto realmente em casa, sendo eu mesma, em uma trilha em meio a grandes árvores, longe, bem longe de gente, muita cantoria dos serezinhos alados a meu redor, frutos e flores silvestres disfarçados por entre os remansos do verde , grilos e sapos festejando o crepúsculo e o enorme dossel do universo sobre mim...
Minha lembrança mais triste da infância foi quando ela foi embora. Sei que não queria ir, nem minha família deixa-la partir, mas o filho - agora bem situado na vida - quis reclama-la para voltar com ele para uma cidade menor, perto da antiga taba, cuidar dos netos. Nem lembro detalhes da despedida.
Só malas arrumadas, asseadíssimas e cheirando a couro encerado, no corredor de entrada lá de casa. E a dor do coração partido de uma menininha solitária; algo de dilacerante ainda me assombra a memória quando evoco aqueles volumes marrons na atmosfera de adeus acinzentada deste capitulo de meus primeiros anos ...
Mas outros volumes, desta vez , com lombadas esguias e figuras coloridas, já me esperavam nas recém colocadas estantes em meu quarto , trazendo novas histórias , para ofertar outras paisagens imaginárias a meu mundo secreto...
Mas isto ... é matéria para outra postagem!

